ECOS DIGITAIS: a dualidade do celular no ambiente acadêmico

Ivandro Souza Coelho

Nº5, 09 de Janeiro de 2025

O celular virou uma febre. Em todos os lugares que a gente vai — trabalho, escola, igreja, bar ou reunião de família — tem sempre alguém usando esse aparelhinho. E o que é pior: nem sempre de modo prudente ou recomendável, para dizer o mínimo.

Outro dia estava num velório quando de repente um sujeito sacou o smartphone do bolso e começou a tirar várias fotos do defunto, para constrangimento da família e de todo mundo ali que tinha o mínimo de bom senso. O único que pareceu não ligar para tamanha descompostura foi o próprio morto.

Mas como eu estava dizendo, atualmente é quase impossível pensar em alguém sem celular. Cada vez mais potentes, rápidos e funcionais, esses dispositivos divertem e nos conectam com o mundo. Talvez por isso façam tanto sucesso, especialmente entre os jovens.

Essa paixão dos jovens pelo celular naturalmente fez com que eles chegassem com força no ambiente escolar. Em 2018, um estudo encomendado pela Motorola revelou que metade dos estudantes brasileiros entre 16 e 20 anos considerava o smartphone seu melhor amigo.

Na verdade, o uso de celulares nas escolas começou no início dos anos 2000, embora ainda fosse considerado um luxo. Com o avanço da tecnologia e a popularização dos smartphones, em 2010, houve um aumento. Mas foi em 2020, durante a pandemia de COVID-19, que a presença desses aparelhos explodiu, devido ao aumento das aulas online e ao uso de plataformas digitais.

Num primeiro momento, o sistema escolar aceitou sem grande resistência – e até com uma certa euforia – a chegada de mais essa novidade tecnológica, inclusive integrando-a como ferramenta pedagógica. Porém, passados alguns anos, a experiência de sala de aula mostra que já há quem veja com outros olhos. 

Por exemplo, recentemente a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovaram projetos de lei que proíbem o uso de celulares em sala de aula. A justificativa dos parlamentares é que o celular diminui a capacidade de concentração e prejudica o desempenho acadêmico dos estudantes, além de afetar a interação social.

A inciativa não chega a ser uma novidade. Vários países já implementaram restrições ao uso de celulares em escolas e salas de aula, entre eles França, Japão, Coreia do Sul, Canadá e Estados Unidos. Pois bem: se é verdade que o celular afeta negativamente a aprendizagem de estudantes da educação básica, o que dizer sobre o uso desse dispositivo no ensino superior?

Eis uma discussão polêmica. Vou falar um pouco da minha própria experiência. Quando comecei aqui na FAP, o celular ainda não havia sido incorporado ao ambiente acadêmico. Os professores – inclusive eu – utilizavam textos impressos, geralmente capítulos de livros. Era uma forma de facilitar o acesso dos alunos ao material didático.

Porém, recebíamos muitas críticas dos alunos. Além do custo, havia o estresse com as máquinas copiadoras, que viviam quebrando. A chegada do celular praticamente aboliu o uso do papel, além de eliminar os gastos com xerox. A moda agora é ler os textos em PDF que os professores deixam postados na plataforma online da faculdade. 

Tudo parece ótimo. O problema é que quase ninguém consegue ler um texto todo no celular. E mais: quando o aluno abre um PDF no smartphone, sempre deixa outras janelas abertas. Sem falar no WhatsApp e outras redes sociais. Então, mal o estudante começa a ler, já se distrai com mensagens, links ou vídeos aleatórios. Isso tem provocado até a diminuição do tamanho dos textos ofertados. 

Diante desse cenário, me pergunto: que tipo de profissionais estamos formando? Será que não deveríamos repensar o uso excessivo do celular em sala de aula? Paulo Freire diz que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Mas quando a leitura não se dá pela experiência concreta e sim por meio de dispositivos eletrônicos, que mundo é esse que temos como referência? 

Quem sou eu

Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Possui Mestrado em Educação pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Maranhão (PPGE/UFMA); graduação em Pedagogia pela Faculdade do Baixo Parnaíba (FAP); graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com habilitação em jornalismo; Formação de Docente de Ensino Médio e Profissional pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA); especialização em Língua Portuguesa pela Faculdade Atenas Maranhense (FAMA); Professor nos cursos de Letras, Direito, Pedagogia, Ciências Contábeis, Fisioterapia e Enfermagem da Faculdade do Baixo Parnaíba. Também tem experiência como professor de Língua Portuguesa na rede estadual de ensino. Técnico em Assuntos Educacionais pela UFMA. Membro dos seguintes grupos de pesquisa: Cultura, Imaginário, Memória, Narrativa e Educação (CIMNE/UFF) e Grupo de Estudos sobre Arte, Cultura e Imaginário na Educação (GSACI/UFMA). E-mail: ivandrocoelho2024@gmail.com.

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